segunda-feira, 17 de agosto de 2026

“O BANDEIRISMO PAULISTA”: terceira e última conferência no IHGSP em março de 1914

 Por Basílio de Magalhães *

Transcrevemos a terceira e última conferência do Prof. Basílio de Magalhães proferida em 23/03/1914 e publicada pelo Correio Paulistano em 24 de março de 1914 na edição nº 18.202, página 2, quando tomou posse como membro efetivo do IHGSP.  
Basílio de Magalhães (✰ Barroso, 07/06/1874 - ✰ Lambari, 14/12/1957)

 

I. INTRODUÇÃO

Nesta terceira e última conferência sobre o tema "O Bandeirismo paulista", o jornal Correio Paulistano não cita as palavras  do orador, mas utiliza uma voz narrativa em 3ª pessoa, que é uma característica do discurso indireto.
Dessa forma, ficamos sabendo que os documentos referidos na palestra se prendem ao ciclo da prata, uma das divisões do bandeirismo. 

 
II. Texto do Correio Paulista referente à segunda conferência do sr. Basílio de Magalhães
 
Às 20 horas de ontem, realizou-se, no Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, a segunda sessão extraordinária para a terceira conferência, que, sobre o Bandeirismo paulista, fez o distinto professor sr. Basílio de Magalhães, do Ginásio de Campinas. (...) 
Em seguida, o professor Basílio de Magalhães passou a desenvolver a sua tese, cujo resumo damos a seguir: 
 
A propósito dos índios, em relação com o bandeirismo, diz o orador que a expedição do coronel Salvador Furtado, em 1694, constitui a última leva escravista, de notoriedade histórica, transmudada em descobridora de minas. Refere-se às questões entre os paulistas e os ignacianos, oriundas do cativamento dos silvícolas, a que os jesuítas se opunham, e mostra como a legislação lusitana andou para diante e para trás, tergiversando em assunto de tanta relevância, conforme era maior ou menor, no mimo dos soberanos portugueses, o influxo dos discípulos de Loyola. 
Cita os curiosos documentos que coligiu no Arquivo Nacional, e dos quais se patenteiam os abusos de toda sorte cometidos contra os nossos míseros fetichistas. A seu ver, o truque mais hábil empregado pelos colonos, no intuito de burlarem as leis então vigorantes, foi o de assalariarem os catecúmenos das aldeias do padroado, e, a fim de os vincularem definitivamente à gleba, casá-los com as escravas africanas... 
De uma carta do governador também se infere que até os edis paulistanos se apropriavam indebitamente dos índios das reduções jesuíticas, sitas em Barueri e S. Miguel. 
Artur de Sá e Menezes cuidou do importante problema, buscando-lhe remédios adequados, e, como fosse contrário à direção temporal dos ignacianos, criou o cargo de procurador geral dos índios, para ele nomeando a Isidro Tinoco de Sá, a quem depois fez também capitão-mor de todas as aldeias da capitania,  atos que foram aprovados pelo governo da metrópole,  instituindo-se, desse modo, a assistência civil, hoje renovada com tão prodigiosos resultados. 
Ao tratar da organização das milícias, mostra que foi esse um ato de grande habilidade de Artur de Sá e Menezes, que assim soube agradar aos paulistas e animá-los a prestar novos e ainda mais valiosos serviços à coroa portuguesa. Dos oficiais da ordenança e dos oficiais dos auxiliares (a guarda nacional daquele tempo), foi que ele se serviu para os postos de responsabilidade na organização civil das minas. 
No tocante à regularização da justiça em S. Paulo, encontrou o orador documentos que permitem retificar vários enganos e anacronismos dos cronistas e autores de livros de linhagens. Assim, desfez o erro de Silva Lisboa, perfilhado por Azevedo Marques, quanto à ouvidoria de S. Paulo, evidenciando que esta não foi bipartida em duas, e, sim, jurisdicionalmente separada da do Rio de Janeiro, pelo termo de junta de 2 de maio de 1700, aprovado pelo rei a 29 de outubro do mesmo ano. 
Estudando a sangrenta tragédia doméstica, de que foi protagonista o coronel Antônio de Oliveira Leitão, conclui o orador dizendo que esse cruento episódio,  de matar um pai a única filha, por uma suspeita infundada, e o de que foi autor Fernão Dias Paes Leme,  fero Júnio Bruto ¹ dos sertões mineiros,  fazendo suspender da forca, no acampamento do Sumidouro, a um filho natural, ao seu dileto José Paes, que urdira conspiração para impedir o genitor quase octogenário de prosseguir na inútil jornada à caça das esmeraldas, constituem as duas únicas aberrações de caráter dos paulistas, escurentando com o sangue da própria amada prole a luminosa esteira da sua marcha heróica e triunfal para a imortalidade da História. 
No concernente ao padre dr. Guilherme Pompeu de Almeida, o orador, tomando por tema a carta de Artur de Sá e Menezes ao rei, lembrando o nome do ilustre teólogo paulista para algum alto cargo eclesiástico, cita-lhe o tronco avito e o destino da sua enorme fortuna, deixada à administração dos jesuítas, e faz ver que existem presentemente no Arquivo Nacional documentos de alta valia, relativos às terras de Araçariguama, os quais podem permitir à fazenda pública a reivindicação de imensos latifúndios, incorporados no domínio geral pela lei do confisco de 1761 e hoje talvez indevidamente ocupados. A propósito do testamento do padre dr. Guilherme Pompeu de Almeida, cita o conferencista a carta régia de 17 de novembro de 1713 (ano do falecimento do notável sacerdote), fazendo ver que d. João V ali atribuía ao célebre tonsurado mais vasta progênie do que a confessada em suas disposições de última vontade. 
Passa então o orador, mercê dos documentos que coligiu, a completar a lacunosa biografia do afamado Domingos da Silva Bueno, uma das mais proeminentes figuras do bandeirismo paulista, tão imperfeitamente e tão pouco apreciada pelos linhagistas. E também com o intuito de retificar enganos dos escritores especialistas, como Azevedo Marques, Diogo de Vasconcelos e outros, põe em foco as individualidades de Manuel Lopes de Medeiros e Matias Barbosa da Silva, os quais, não obstante a alta soma dos seus serviços, prestados à terra paulista, não mereceram a honra de que lhes abrissem os cronistas capítulo especial nas suas obras, eivadas de tendências pessoais, de vaidades de família, tanto que Azevedo Marques, tendo longamente tratado do seu avoengo, o reinol Torquato Teixeira de Carvalho, deixou em quase completo olvido a personalidade, por sem dúvida superior àquela outra,  de Domingos da Silva Monteiro. 
Analisando, à luz das provas históricas, o caráter dos paulistas, faz o orador uma longa exposição dos fatos demonstrativos do arrojo insobrepujável, da índole bravia e independente dos bandeirantes, que, além da malograda aclamação de Amador Bueno, em 1641, e da expulsão dos jesuítas, pela mesma data, se rebelaram mais de uma vez contra a autoridade dos procônsules lusitanos (Salvador Corrêa de Sá e Benevides e Artur de Sá e Menezes), contra as ordens do soberano e do governador geral do Estado do Brasil, e não só depuseram do seu posto, em 1697, ao capitão-mor Gaspar Teixeira de Azevedo, e se amotinaram em 1698, para que não fosse executada a ordem régia da quebra do padrão da moeda, como também se insurgiram contra os guardas-mores que primeiro exerceram o seu mister nas minas,  José de Camargo Pimentel e Garcia Rodrigues Velho. 
E, mediante o documento que encerra a queixa dos paulistas, feita a 7 de abril de 1700, contra a concessão de datas na região aurífera a outros que não aos seus descobridores e conquistadores, conforme lhes haviam prometido as cartas régias, estabelece o orador os fundamentos da "guerra dos emboabas", tão mal estudada e tão mal conhecida até agora. 
Com os conceitos emitidos pelos ministros de Estado de Portugal, por Saint-Hilaire e Oliveira Martins, sobre o caráter e o papel proeminente dos paulistas, termina o orador esta parte da sua conferência. 
Entrando a apreciar a figura indeslembrável do hábil administrador que foi Artur de Sá e Menezes, ao regressar definitivamente para a sua pátria, em 1702, levou consigo 30 arrobas de ouro. Pois bem,  isso nada é em cotejo com os benefícios inestimáveis que a nossa terra lhe mereceu. 
Concluindo, afirma o orador que o estudo e a evocação dos audazes pioneiros da civilização brasileira, se outra valia não tivessem, ao menos serviriam para reerguer a fibra desalentada do nosso povo, e dar-lhe, com o exemplo edificante de tantos feitos grandiosos, uma lição necessária, para que cuidemos mais alevantadamente desta Pátria imensa e rica que eles formaram e para que mais dignos deles nos tornemos, na preparação do futuro ridente que nos espera. 
 
As últimas palavras do conferencista foram acolhidas por uma vibrante salva de palmas. 
O sr. presidente, antes de encerrar a sessão, congratulou-se, com o Instituto pelas magníficas conferências com que o estimado consócio, professor Basílio de Magalhães, contribuiu para o desenvolvimento do programa do sodalício e dirigiu ao conferencista palavras de animação e aplausos pelas suas pacientes investigações históricas e acertadas revisões de datas e fatos, de importância para o conhecimento do passado nacional. Apreciou a ação inteligente do brilhante investigador e os resultados profícuos que dele provirão. Foram por igual calorosamente aplaudidas as palavras do sr. presidente, que convidou os societários para a sessão de 5 de abril, e encerrou os trabalhos.
 
* Biografia no site do IHG de São João del-Rei por José Passos de Carvalho
 
 
III. NOTA EXPLICATIVA do gerente do Blog de São João del-Rei 
 
¹  O nome Júnio Bruto refere-se principalmente a duas figuras fundamentais e distintas da história de Roma: o lendário fundador da República Romana e o famoso assassino de Júlio César.

a) Lúcio Júnio Bruto (Século VI a.C.)
 
Foi o fundador semilendário da República Romana e um dos seus dois primeiros cônsules no ano de 509 a.C.. Ele liderou a revolta popular que derrubou o último rei de Roma, Tarquínio, o Soberbo, jurando que Roma nunca mais seria governada por um rei. É lembrado como o símbolo máximo do patriotismo e do sacrifício republicano por ter condenado os próprios filhos à morte quando estes tentaram conspirar para restaurar a monarquia. (Basílio parece estar se referindo a este, já que atribui a Fernão Dias Paes Leme o filicídio devido à condenação do próprio filho à morte por conspirar contra a expedição do pai à caça das esmeraldas.)
 
b) Marco Júnio Bruto (85 a.C. – 42 a.C.)

Este é o célebre senador que liderou o assassinato de Júlio César nos Idos de Março (15 de março de 44 a.C.). Orgulhoso de ser descendente direto de Lúcio Júnio Bruto, ele via o acúmulo de poder nas mãos de César (então ditador vitalício) como uma ameaça mortal à liberdade de Roma.
Apesar de ser um amigo próximo e protegido de César — gerando a famosa expressão dramática "Até tu, Brutus?" (Et tu, Brute? em latim) —, colocou a preservação da República acima dos laços pessoais. Após a morte de César, ele fugiu para a Grécia, reuniu um exército contra os herdeiros do ditador Júlio César (Marco Antônio e Otaviano) e suicidou-se após ser derrotado na Batalha de Filipos.
 
 
III. BIBLIOGRAFIA
 
BRAGA, F.J.S.: BIOBIBLIOGRAFIA DE BASÍLIO DE MAGALHÃES, publicado em 10/03/2019 no Blog de São João del-Rei
 
MAGALHÃES, Basílio de:  “O BANDEIRISMO PAULISTA”: conferência no IHGSP em março de 1914, publicado em 15/08/2026 no Blog de São João del-Rei
 
______________________: “O BANDEIRISMO PAULISTA”: segunda conferência no IHGSP em março de 1914, publicado em 16/03/2026 no Blog de São João del-Rei
 

Um comentário:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
Dando sequência ao conjunto das três conferências por BASÍLIO DE MAGALHÃES, este Blog apresenta a 3ª e última conferência proferida no salão nobre do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, quando o orador tomou posse como membro efetivo do sodalício.
Nesta última conferência, o orador privilegia o tema da caça ao índio, mas não só este, tratando de outros temas igualmente importantes, como o de "retificar vários enganos e anacronismos dos cronistas e autores de livros de linhagens" e "enganos dos escritores especialistas".
Conforme visto no post anterior, o jornal Correio Paulista apresenta esta última conferência em 3ª pessoa, não reproduzindo exatamente as palavras do orador, mas utilizando uma voz narrativa, que, neste caso, resumiu as palavras do orador.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/08/o-bandeirismo-paulista-terceira-e.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei