domingo, 21 de dezembro de 2014

MAESTRO "GUARANÁ", uma das maiores glórias de São João del-Rei (1911-1968)


Por Francisco José dos Santos Braga  *

Este artigo apareceu originalmente no JORNAL DE MINAS, publicado em São João del-Rei, Ano XV, nº 253, 12 a 18/12/2014, p. 2. 



No Dia de Finados fui ao Cemitério das Mercês rememorar e homenagear meus saudosos entes queridos, quando lá me deparei com o amigo e confrade Nêudon Bosco Barbosa, editor do Jornal de Minas, que para ali também se dirigira para prantear seus pais e irmãos já falecidos. Convidei-o a me acompanhar ao túmulo de uma das maiores glórias musicais são-joanenses, o Maestro "Guaraná”, que ele ainda não conhecia. Relatei-lhe o que vai abaixo e, profundamente motivado, incentivou-me a escrever o que se segue.

Gustavo Nogueira de Carvalho, conhecido como Maestro "Guaraná” pelos entendidos ou “Nhonhô Guaraná” pelos familiares e pessoas mais chegadas, nasceu na Rua de São Roque, na cidade de São João del-Rei, em 16 de abril de 1911, filho de Alfredo Ferreira de Carvalho e Henriqueta de Carvalho Nogueira. Foi batizado exatamente um ano depois na Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei.

Em sua juventude, compôs inúmeras peças para revistas encenadas no “Clube Artur Azevedo” em sua cidade natal. Antônio (“Niquinha”) Guerra, em seu livro “Pequena História de Teatro, Circo, Música e Variedades em São João del-Rei -1717 a 1967”, cita, pelo menos, as seguintes revistas teatrais e outras obras que “Guaraná” musicou: “A Mina de Brugudum” (1931), de Agostinho Azevedo; “S. João del-Rei” (1934), do Dr. José Viegas, “com 31 encantadores números de música do jovem e inspirado maestro conterrâneo”, alcançando 8 récitas; opereta “Rosa Branca” (1934), do Capitão Mendes de Holanda; “Cruzeiro do Sul” (1935), do Dr. José Viegas; burleta regional em 2 atos, “Cabocla Bonita” (1935), de Marques Porto e Ari Pavão (musicada por Assis Pacheco e inspirada instrumentação de "Guaraná"); e “Terra das Maravilhas” (1938), em 3 atos, de Antônio Guerra e Alberto Nogueira.

O saudoso e querido maestro são-joanense, festejado compositor das partituras "S. João del-Rei" — "Terra das Maravilhas" e da opereta "Rosa Branca" (GUERRA, 1968: 192)

Parece que de 1939 a meado de 1945, esteve afastado do “Clube Artur Azevedo”, período durante o qual ele estudou com o maestro João Cavalcante, companheiro de farda e regente da Banda do 11º Regimento de Infantaria, sediado em São João del-Rei, tendo sido seu assistente, colaborando com ele devido à sua habilidade de compor arranjos e de tocar, além do violino, alguns instrumentos de sopro. “Guaraná”, além de ter feito muitos arranjos para essa banda, ainda participou como violinista, também sob a regência de seu professor, na Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei.

De acordo com sua ficha funcional na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, “Guaraná” foi contratado pela emissora no dia 1º de julho de 1945 como violinista e em 4 de julho de 1949 foi promovido para a função de arranjador. Em 1º de outubro de 1954 o nome do cargo passa para maestro e arranjador. Em 1º de agosto de 1955, outra mudança, agora para orquestrador, e a 1º de setembro de 1960 a última mudança de cargo, de orquestrador para maestro arranjador nível 20. Na Rádio Nacional, trabalhou ao lado de muitos ilustres compositores e arranjadores brasileiros, dentre os quais destaco: Radamés Gnattali, Lyrio Panicali, César Guerra-Peixe e Lindolfo Gomes Gaya. O Maestro aposentou-se da Rádio Nacional em 6 de novembro de 1967. Exatamente no dia 24 de fevereiro de 1968, quando estava se dirigindo a São João del-Rei, onde seria jurado no carnaval de 1968, Guaraná sofreu um acidente rodoviário na Rio-Petrópolis, vindo a falecer no Hospital de Petrópolis. 

Segundo o musicólogo são-joanense Aluízio José Viegas, após a aposentadoria, "Guaraná" pretendia voltar definitivamente para sua cidade natal, onde sonhava continuar a exercer suas atividades musicais e tinha alguns planos para a vida musical de São João del-Rei, que infelizmente não chegou a concretizar por superveniente golpe do destino: a fundação de um grupo de música de câmara, para a gravação de músicas de compositores populares são-joanenses, entre os quais se destacam: José Lino, João da Mata, João Feliciano de Souza, José Cantelmo Júnior e José Raimundo de Assis. Na Sociedade de Concertos Sinfônicos, popularmente conhecida por "Sinfônica", contaria com a colaboração do teatrólogo Dr. José Viegas, onde aquele desenvolveria arranjos de operetas. Devido a seus contatos com gravadoras e meios de comunicação na Capital Federal, esperava divulgar e receber apoio para esses projetos. Sonhava também com uma melhor qualificação dos músicos instrumentistas são-joanenses e se propunha a habilitá-los para enfrentarem os grandes palcos nacionais ou estrangeiros.

Sobre sua personalidade nos fala Gentil Palhares em crônica com seu nome: “Sempre modesto, simples, não alardeava os seus conhecimentos e a sua ascensão artística e aqui nos vinha visitar periodicamente. Jamais olvidou, pois, no apogeu da glória, a sua Terra Natal, para onde, dizia-nos sempre, tinha o seu coração voltado. Para os festejos do Carnaval era um visitante assíduo de sua Terra e dizia mesmo: "Estou fugindo do Rio" ― falava e sorria.

Os arranjos do Maestro "Guaraná" eram arrojados, bem como primavam pela qualidade, bom gosto e singularidade, podendo-se dizer que se destacavam das versões de outros arranjadores para as mesmas músicas. Além de produzir 1.015 arranjos/composições para diversos programas da Rádio Nacional, “Guaraná” também desenvolveu uma carreira bem sucedida como dirigente de sua própria orquestra.  O que será enumerado abaixo constitui o que já consegui descobrir de sua atividade como regente/orquestrador, outra vertente de sua capacidade criadora.

Foi ele quem teve a feliz ideia de reunir os instrumentistas associados ao Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio de Janeiro e de produzir o LP de 10 polegadas intitulado "Pérolas da Música Brasileira", lançado com o selo Copacabana em 1955. Partiu dele a ideia de produzir esse LP, ficando também responsável pela regência de todas as peças e por todos os arranjos. As faixas desse LP são as seguintes: Despertar da Montanha, Carinhoso, Linda Flor, Feitiço da Vila, Do Sorriso da Mulher nasceram as Flores, Bentevi Atrevido, Na Baixa do Sapateiro e Tico-tico no Fubá.

Além disso, "Guaraná e Sua Orquestra” participou da gravação de um vinil lançado pela Polydor em 1956, intitulado "Recordando...", com oito faixas dedicadas a clássicos da música popular brasileira.
"Guaraná e Sua Orquestra" ainda participou com o acompanhamento da música "Caminhemos" num disco com 8 faixas que podemos considerar histórico dentro da indústria fonográfica brasileira, "Quando os Maestros se encontram com ÂNGELA MARIA" (1957), por ter sido um dos primeiros discos de 12 polegadas lançado pela Copacabana. Os outros Maestros que participaram da antológica gravação foram: Severino Araújo, Lindolfo Gaya, Renato de Oliveira, Léo Peracchi, Lyrio Panicalli, Gabriel Migliori e Sylvio Mazzucca.

“Guaraná” foi ainda o arranjador de todas as faixas do LP Isto é Lamartine (1963) interpretadas pelo grupo vocal Os Rouxinóis, com composições de Lamartine Babo.

A Câmara Municipal de São João del-Rei houve por bem homenagear o Maestro Guaraná, aprovando denominação de "Gustavo de Carvalho (Guaraná)" à travessa que liga a Praça Francisco Neves à Rua José Mourão.

Por todas essas realizações no campo musical, Maestro "Guaraná", são-joanense dos mais ilustres, que dignificou e engrandeceu sua cidade natal com sua divina música, faz-se merecedor de que nós são-joanenses reverenciemos a sua memória, tributando-lhe nossa gratidão e eterno reconhecimento. 




* O autor tem Bacharelado em Letras e Composição Musical, bem como Mestrado em Administração. Participa ativamente como membro de diversas instituições de cultura no País e no exterior. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com.br/) e é um dos colaboradores e gerente do Blog de São João del-Rei. Escreve artigos e ensaios para revistas, sites e portais de música e periódicos.

13 comentários:

Prof. Dr. Adriano Benayon (professor universitário, ex-diplomata, ex-Consultor do Senado Federal e escritor) disse...

Caro colega Braga,

Muito grato por mais este documento da cultura de nosso País.

Aproveito para desejar a você e Rute feliz Natal e excelente Ano Novo.



Adriano Benayon

Profª Elza de Moraes Fernandes Costa (terapeuta holística, pianista e gerente do Portal Concertino) disse...

Prezado Braga,

Parabéns pelo artigo!

Um abraço,

Elza
Gerente do Portal Concertino (www.concertino.com.br)

Benedito Franco (escritor e cronista) disse...

Grato, Amigo.

Ótimo!

BFranco

Prof. Fernando Teixeira (professor universitário, escritor e Secretário Geral da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Muito agradecido pelo texto, de resto expressão de sua cultura e cuidado artístico. Abraço do confrade Fernando Teixeira

João Bosco da Silva (escritor e Membro da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Caro amigo Braga,
Somente ontem consegui parar para ler seu artigo sobre o Maestro Guaraná, o qual era totalmente desconhecido para mim. Creio que, como eu, muitas outras pessoas ficaram surpresas não só pelo "aparecimento" deste importante personagem da história de nossa música, como também pela farta apresentação de fatos e detalhes no seu artigo.
Parabéns, portanto.
Obs: Que tal o amigo continuar dividindo seus conhecimentos conosco, publicando novos artigos como este e, quem sabe, um livro sobre uma possível história da música em São João del-Rei?

ABRAÇÃO. FELIZ ANO-NOVO.

João Bosco

Eustáquio Marconcine Bini (professor da Universidade Federal de Viçosa e Membro da Academia Formiguense de Letras) disse...

Prezado amigo e confrade Braga:

Muito obrigado pelas notícias que você tem me enviado. A nossa São João Del Rei continua linda como sempre.
Um grande abraço a todos vocês e um 2015 repleto de paz.
Eustáquio Marconcine Bini

lucinhabranca@hotmail.com disse...

BRAGA,
SOU IRMÃ DA LUCI TEIXEIRA,CANTORA HÁ 44 ANOS.COMECEI MINHA CARREIRA COM MENDES, ZÉ EUSTÁQUIO PEREIRA,ISMAEL,CHICO BAGUNÇA E OUTROS... HOJE FAÇO PARTE DE UMA BIG BAND-ANOS DOURADOS MUSIC SHOW,EM BH. CONHECI E CONVIVI COM GUARANÁ,UMA CRIATURA CARISMÁTICA,JUNTO COM SUA ESPOSA
JÁ SABIA DE SUA FAMA NO RIO DE JANEIRO E OUTROS ESTADOS DO BRASIL,CONHECIDO NO MEIO MUSICAL.QUE BOM VER RESGATADO O VALOR MUSICAL DE UM FILHO DE NOSSA SÃO JOÃO. PARABÉNS............O ARTIGO DO LINCOLN FICOU MARAVILHOSO.ABRAÇOS LUCINHA BRANCA.

Prof. Fernando Teixeira (professor universitário, escritor e Secretário Geral da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Mais uma vez o cumprimento pelos textos. Abraço do confrade e amigo para você e esposa.
Fernando Teixeira

Paulo José de Oliveira (escritor e presidente da Academia Formiguense de Letras) disse...

Obrigado meu nobre Confrade amigo! Mais uma vez vemos figurar nosso ilustre Gentil Palhares. Um abraço

Att.,

Paulo José de Oliveira

Eduardo Oliveira (professor e ex-salesiano são-joanense) disse...

São João, terra de mentes brilhantes e corações patriotas.

Salve Maestro, salve Sanjoanenses, salve São João del-Rei.

Com Dom Bosco sempre

edu

Alfredo Luiz de Carvalho (arquiteto em BH, irmão do Maestro Guaraná e proprietário da pousada Pouso do Sol) disse...

FRANCISCO BRAGA.
BOM DIA.
SOU UM DOS IRMÃOS DO MAESTRO GUARANÁ - o nhonhô. RECEBO SEMPRE SEUS TRABALHOS, QUE APRECIAMOS MUITO, EU E MEU SOBRINHO FRANCISCO DE ASSIS CARVALHO S.BARROS E OS IRMÃOS.
CRIAMOS, HÁ ALGUM TEMPO EM NOSSA POUSADA " Pouso do Sol " UMA SALA EM HOMENAGEM AO MAESTRO. "Sala Gustavo Carvalho" - UM AMBIENTE DE MÚSICA ONDE TEMOS UM PIANO E SEMPRE UM VIOLÃO, CAVAQUINHO ETC, E O VIOLINO DO GUARANÁ.
TODO 1° SÁBADO DE CADA MÊS INSTITUÍMOS HÁ 10 ANOS, A "Noite da Canja" ONDE OS AMIGOS QUE TOCAM ALGUM INSTRUMENTO,SE REÚNEM, EM UM SARAU. VOCÊ ESTÁ CONVIDADO !

TENTEI IMPRIMIR AS 3 CRÔNICAS QUE RECEBI, NESTE ÚLTIMO E-MAIL, MAS NÃO CONSEGUI, POIS ESTÃO BLOQUEADAS
PELO SISTEMA.
GOSTARIA DE SABER DA POSSIBILIDADE DE NOS LIBERAR, PARA IMPRESSÃO, CUJA FINALIDADE É COLOCAR NA SALA
CRIADA EM SUA HOMENAGEM, ONDE TEMOS ALGUMAS FOTOS E ALGUMAS PARTITURAS ORIGINAIS.
FICARIA MUITO GRATO.
UM ABRAÇO,
ALFREDO LUIZ DE CARVALHO - irmão do Guaraná.

Prof. Mário Celso Rios (professor, escritor, conferencista e Presidente da Academia Barbacenense de Letras) disse...

Caro BRAGA,
Agradeço-lhe pelo envio de seus últimos c-es, pois você demonstra não apenas abertura de horizontes, mas acima disso, uma imensa necessidade de valorizar talentos e expoentes da música, da literatura, da história, da religião, entre outros.
E o faz com com generosidade e muita vibração! Parabéns!
A você e Rute, nosso abraço carinhoso!
M. CELSO

Prof. José Lourenço Parreira (são-joanense, violinista, professor, regente e escritor) disse...


Parabéns, caro amigo Braga, por sua cruzada em iluminar honrosas biografias da Missa São João! Lourenço