quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

ATÉ LÁ, MÃE QUERIDA!


Por Gentil Palhares


I.  INTRODUÇÃO, por Francisco José dos Santos Braga

Certo dia, procurando matérias que tratassem da Sociedade dos Amigos de São João del-Rei, entidade que existiu em nossa cidade em 1960, deparei-me com  a seguinte nota de falecimento publicada na edição do Diário do Comércio, Ano XXIII, nº 6.518, edição do dia 21 de julho de 1960:
 

PROFESSORA MARIA CLARA DE MELO

"Faleceu no dia 19 do corrente, na cidade de Formiga, onde sempre residiu, e lecionou durante muitos anos, D. Maria Clara de Melo, viúva do snr. Olivério Palhares, ex-Contador, Partidor e Distribuidor daquela Comarca. A extinta, que era filha do saudoso professor Antônio Rodrigues de Melo profundo conhecedor da língua latina, era mãe do nosso brilhante colaborador e homem de letras, Tenente Gentil Palhares e deixa os seguintes filhos: 
Ernesto Faria, comerciante, casado com D. Carmem Faria, residentes em Formiga; D. Iris Silva, casada com o snr. Francisco Teodoro da Silva, proprietário do Iris Hotel, em Divinópolis; D. Luiza Abreu, viúva do snr. Euclides de Abreu; Demerval Faria, aposentado do I.A.P.C., e, finalmente, o Tenente Gentil Palhares, casado com D. Elvira Coelho Palhares, todos aqui residentes. 
O falecimento de D. Maria Clara de Melo, que desaparece aos oitenta e sete anos de idade causou o mais profundo pesar não só em Formiga, como também em Divinópolis e em São João del-Rei, onde a família Palhares sempre foi muito conhecida, desde longos anos, desfrutando de real estima e muito prestígio nos nossos meios sociais. D. Maria Clara de Melo, seguindo o exemplo de seu ilustre pai, o Professor Antônio Rodrigues de Melo, por mais de vinte e cinco anos prestou sua dedicada e leal colaboração ao aprimoramento da cultura de nossa mocidade, para a qual lecionou com grande dedicação e excepcional capacidade de trabalho. 
Ao nosso querido amigo Gentil Palhares, à sua esposa e filhos, aos seus demais irmãos e cunhados, o sincero pezar de toda a turma do DIÁRIO DO COMÉRCIO, de entremeio com os votos mui sinceros que formulamos a Deus para que os reconforte em tão doloroso transe. "
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Certo de que encontraria o elogio fúnebre do ilustre orador Tenente Gentil Palhares para sua saudosa mãe, busquei nas edições posteriores do mesmo jornal o necrológio de sua autoria em homenagem a sua genitora e não tive dificuldade em localizar o trabalho do grande historiador da F.E.B., uma semana depois, que abaixo transcrevo para desfrute dos seus admiradores.

Nas duas matérias aqui reproduzidas foi respeitada a grafia original.



II.  ATÉ LÁ, MÃE QUERIDA!

Por Gentil Palhares 
 
"Quando chegamos à nossa terra natal, onde ela ficou para sempre, já a noite caía fechada e fúnebre. O corpo querido, imóvel e frio, estendido naquele caixão, que nos traz sempre a lembrança da morte, nos esperava no cemitério, já dentro daquela catacumba escura, pronta para ser fechada. À luz de uma vela, pudemos ver então, por minutos fortúitos que quiséramos nós tivessem a duração dos anos, a figura serena da MÃE querida. Tôda de preto, as flôres em torno, não parecia que estava morta. Dormia. Por certo que dormia. Descansava. Foram 87 anos de vida terrena, de lutas, de desenganos. E precisava descansar. Precisava dormir. Mas, vendo-a assim, sem olhar os dois filhos que chegavam aflitos e desolados, sem lhes dar o seu sorriso de sempre, só então compreendemos que tudo era verdade. Só então nos foi dado sentir que nossa MÃE deixara de viver. Só então compreendemos que estava tudo acabado aqui na terra, para aquela a quem Deus fôra assaz pródigo, dando-lhe tão longa jornada, para que pudesse, pela dor e pelo sofrimento, chegar um dia até ÊLE. 
Nos meus pobres escritos, dentro do cenário da vida, nunca me esqueci da morte. Os próprios santos nos recomendam esta meditação, como que nos alertando para a vida futura. De tôdas as crônicas, porém, que tenho escrito, falando dos que já nos deixaram, nenhuma como esta feriu-me tão profundamente. Sem dúvida porque grita dentro de mim o coração de filho. Ou porque tenho a impressão de que falo de minha própria morte, sendo como sou um fragmento pensante daquela que morreu. Oh, não! por que falar em MORTE, se esta não existe? Por que falar que minha MÃE morreu, quando só agora começou a viver? Não é a morte do corpo o princípio da vida da alma? E a alma encarcerada num corpo não é alma morta? Não disse JESUS "deixai aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos?" Choro, entretanto, sôbre os teclados desta máquina, que levam a O DIÁRIO estas linhas, pedaços do meu coração; choro porque sinto saudades, ainda que sabendo-a mais viva do que eu próprio, na conceituação do DIVINO JESUS. Choro ainda porque a palavra MÃE tem a fôrça singular e incoercível, divina e misteriosa de fazer chorar os homens. Choro, enfim, porque a perda de minha MÃE me faz voltar à infância que passou, tempos felizes em que ela era moça e eu menino. E os meninos choram! Por isso, debruçado sôbre esta máquina os teclados se embaralham, se confundem nos meus olhos, onde dançam as lágrimas numa orgia de imagens e de côres. E o meu pensamento vôa para aquêle cemitério triste, onde, no segrêdo da noite, daquela noite mais triste ainda, ela nos esperava no seu caixão florido!  
Foi o último adeus ao corpo amado! Foi o derradeiro olhar de MÃE, que soube sublimar-se no amor aos filhos, sempre ausentes, para que ela, na sua longa trajetória pela vida, vivesse, como nós agora, morrendo de saudades! 
Filhos que ainda possuem suas MÃES! Conservem-nas bem dentro de seus corações! Acariciem-nas na mocidade, mas reverenciem-nas mais apaixonadamente na velhice, quando os seus cabelos brancos vão surgindo, para nos dizer a nós, os filhos, que o ocaso da vida dessas criaturas santas já vem chegando! 
Aqui me despeço, minha MÃE saudosa, porque estas linhas são dirigidas à tua imagem, à tua pessoa, tú que não morreste, mas continuas vivendo, sentindo em espírito os nossos anseios, as nossas dores, as nossas SAUDADES que são muitas. E elas viverão perenes em nossos corações, até que um dia e será um dia feliz, possamos deixar êste VALE DE LÁGRIMAS e nos reunirmos ao teu regaço! Daqui da terra te mandaremos sempre as nossas preces arrancadas do fundo de nossos corações. É o que agora temos para te oferecer, porque de nada mais precisas. 
Até lá, MÃE querida!"

Fonte: DIÁRIO DO COMÉRCIO, São João del-Rei, Ano XXIII,  Nº 6.523, edição de 28 de julho de 1960, p. 2. 

10 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (escritor, pianista e compositor, gerente do Blog de São João del-Rei e do Blog do Braga) disse...

O Blog de São João del-Rei traz aos seus leitores o necrológio escrito por Gentil Palhares em homenagem à sua saudosa mãe e publicado no jornal são-joanense DIÁRIO DO COMÉRCIO, edição de 28 de julho de 1960, e aqui reproduzido para deleite de seus leitores.
Lembro que, bem antes, no mesmo blog, foi publicada a oração fúnebre que o conhecido historiador da F.E.B. pronunciou junto ao túmulo de meu saudoso pai, Roque da Fonseca Braga, a 27 de setembro de 1984. Seu "adeus, querido Roque!..." ainda ecoa em meus ouvidos.

Maravilhosa arte esta de reverenciar o ente querido que morreu! Está a se perder essa tradição de grandes oradores homenagearem alguém com uma última despedida reverente, antes de fazê-lo descer à tumba.
Cordial abraço,
Francisco José dos Santos Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

Paulo José de Oliveira (escritor e presidente da Academia Formiguense de Letras) disse...

Obrigado por brindar-nos com mais este nobre acadêmico amigo! Em especial por ser conterrâneo. Um abç,

Paulo José de Oliveira

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (desembargador, palestrante, conferencista, escritor e membro correspondente da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

GRANDE FIGURA, TENENTE PALHARES!
TENHO DELE A BIOGRAFIA DE FREI ORLANDO.
ABS.

ROGÉRIO

Carlos Fernando dos Santos Braga (administrador, funcionário da UFSJ-Universidade Federal de São João del-Rei, ex-funcionário da Casa da Moeda no Rio de Janeiro e ex-Chefe de Gabinete do MARE-Ministério da Administração e Reforma do Estado em Brasília) disse...

Francisco, boa tarde.
Admirável a forma com que Gentil Palhares nos presenteia, como você disse abaixo, essa despedida reverente a sua querida Mãe. Traz-nos um sentimento de tristeza, lembrando quando manifestamos o adeus a nossa querida Mãe. Parabéns! Atitude decorosa!
Fernando

Elizabeth dos Santos Braga (professora universitária, orientadora, escritora e conferencista) disse...

Lindas palavras do Tenente Gentil Palhares, Franz! Tão profundas, tão verdadeiras... fazem a todos os que já passaram por essa dor se lembrarem de quando viram suas queridas mãezinhas partindo. E do quão importantes elas são para os seus filhos.
Parabéns pela busca e pela felicidade de encontrar essa joia!
Elizabeth

Maria José Cassiano de Oliveira (pedagoga e gerontóloga) disse...

Obrigada, Francisco.
Ten Gentil Palhares,cidadão são-joanense atuante,grande escritor,é sempre lembrado em minhas conversas com o meu pai, seu amigo.
Emocionante!

Maria José Cassiano de Oliveira

Nilo da Silva Lima (poeta, escritor e membro de Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Prezado Francisco,

Obrigado pelo envio de suas matérias que leio assiduamente. Parabéns!

Nilo Lima

Passos de Carvalho disse...

Prezado amigo Francisco Braga.
Obrigado pela mensagem escrita pelo meu saudoso amigo e conterrâneo Gentil Palhares. Um artigo lindo. Obrigado por mim brindar com este lindo texto.

Passos de Carvalho, da Academia Lavrense de Letras

Prof. Fernando Teixeira (professor universitário, escritor e Secretário Geral da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

O mundo se transformou e, com esta mudança, a morte se tornou algo corriqueiro. Talvez isto, Braga, explique que já não se discurse à beira das sepulturas ou se produzam peças do naipe da escrita por Gentil Palhares. Há o silêncio certamente de indiferença. E o viver deixa de ser sonho de eternidade. Abraço do Fernando Teixeira

Eduardo Oliveira (ex-salesiano e animador sociocultural) disse...

Francisco amigo,

bom dia!

Meu coração explode e meus olhos merejam ao você me trazer à mente a figura do "Sô Roque" e me vem em seguida a "Da. Celina" e meus amigos seus filhos. Coisa gostosa, a saudade; melhor ainda as lembranças de uma infância feliz. Que Deus nos abençoe sempre para que elas sem eternas!

Edu