sexta-feira, 29 de agosto de 2025

O JULGAMENTO DE FRINÉIA


Por Olavo Bilac
Transcrevemos, com a devida vênia da Editora Martin Claret, o poema referenciado constante do livro Sarças de Fogo, elemento integrante de Antologia: Poesias, publicada em 2002, pp. 57-93.  
Frinéia diante do Areópago, por Jean-Léon Gérôme (1861)

 
Mnesarete, a divina, a pálida Frinéia, 
Comparece ante a austera e rígida assembléia 
Do Areópago supremo. A Grécia inteira admira 
Aquela formosura original, que inspira 
E dá vida ao genial cinzel de Praxíteles, 
De Hiperides à voz e à palheta de Apeles. 
 
Quando os vinhos, na orgia, os convivas exaltam 
E das roupas, enfim, livres os corpos saltam, 
Nenhuma hetera sabe a primorosa taça, 
Transbordante de Cós, erguer com maior graça, 
Nem mostrar, a sorrir, com mais gentil meneio, 
Mais formoso quadril, nem mais nevado seio. 
 
Estremecem no altar, ao contemplá-la, os deuses, 
Nua, entre aclamações, nos festivais de Elêusis... 
Basta um rápido olhar provocante e lascivo: 
Quem na fronte o sentiu curva a fronte, cativo... 
Nada iguala o poder de suas mãos pequenas: 
Basta um gesto,  e a seus pés roja-se humilde Atenas... 
Vai ser julgada. Um véu, tornando inda mais bela 
Sua oculta nudez, mal os encantos vela, 
Mal a nudez oculta e sensual disfarça. 
 
Cai-lhe, espáduas abaixo, a cabeleira esparsa... 
Queda-se a multidão. Ergue-se Eutias. Fala, 
E incita o tribunal severo a condená-la: 
 
“Elêusis profanou! É falsa e dissoluta, 
Leva ao lar a cizânia e as famílias enluta! 
Dos deuses zomba! É ímpia! é má!” (E o pranto ardente 
Corre nas faces dela, em fios, lentamente...) 
“Por onde os passos move a corrupção se espraia, 
E estende-se a discórdia! Heliastes! condenai-a!” 
 
Vacila o tribunal, ouvindo a voz que o doma... 
Mas, de pronto, entre a turba Hiperides assoma, 
Defende-lhe a inocência, exclama, exora, pede, 
Suplica, ordena, exige... O Areópago não cede. 
“Pois condenai-a agora!” E à ré, que treme, a branca 
Túnica despedaça, e o véu, que a encobre, arranca... 
 
Pasmam subitamente os juízes deslumbrados, 
Leões pelo calmo olhar de um domador curvados: 
Nua e branca, de pé, patente à luz do dia 
Todo o corpo ideal, Frinéia aparecia 
Diante da multidão atônita e surpresa, 
No triunfo imortal da Carne e da Beleza.
 
 
II. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 


BRAGA, Francisco J.S.: FRINÉ, A HETERA FAVORITA DE PRAXÍTELES, matéria publicada no Blog do Braga em 28/08/2025

3 comentários:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Prezad@,
Aproveitando a oportunidade da publicação anterior de FRINÉ (ou FRINÉIA), A HETERA FAVORITA DE PRAXÍTELES, envio-lhe o célebre poema de OLAVO BILAC, O JULGAMENTO DE FRINÉIA, tendo por tema o igualmente famoso julgamento da mesma protagonista pelo tribunal do Areópago de Atenas, o evento mais conhecido na sua vida. Foi processada pelo crime de impiedade e defendida pelo orador Hipérides, que teria sido um de seus amantes.
Quando parecia que o veredito ia ser desfavorável, Hipérides tomou a decisão de arrancar a túnica de Frinéia para expor seus seios aos juízes e assim despertar a sua compaixão. Sua beleza infundiu um medo supersticioso nos juízes, a tal ponto que não se atreveram a condenar à morte "uma profetisa e sacerdotisa de Afrodite" e decidiram absolvê-la por compaixão", segundo Ateneu de Náucratis.
O poema de Bilac relata esse episódio ocorrido na Grécia antiga, que ao longo do tempo foi fonte de inspiração para várias manifestações artísticas; e no campo do Direito é citado como o mais remoto caso de "direito a imagem" (DIAS, 2000, p. 65 e BARBOSA, 1989, p. 02), uma vez que a absolvição da jovem Frinéia decorreu da exposição de sua própria figura diante do tribunal de Atenas, o Areópago.
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2025/08/o-julgamento-de-frineia.html
Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

Francisco José dos Santos Braga disse...

Anderson Braga Horta (poeta, escritor, ex-presidente da ANE-Associação Nacional de Escritores e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, cujo livro mais recente de novembro 2024, Iniciações, revisita os anos felizes de sua infância na Cidade de Goiás) disse...
Muito bem, Francisco.
Acabei nomeando outro belo poema de Bilac...
Na cabeça do velho misturaram-se as de
outros dois velhos caducos...
Valeu!

Francisco José dos Santos Braga disse...

Heitor Garcia de Carvalho (pós-doutorado em Políticas de Ensino Superior na Faculdade de Psciologia e Ciências da Informação na Universidade do Porto, Portugal (2008)) disse...
Boa lembrança...