Transcrevemos a primeira de três conferências do Prof. Basílio de Magalhães proferida em 20/03/1914, publicada pelo Correio Paulistano em 21 de março de 1914 na edição nº 18.199, na coluna Crônica Social, página 2, quando tomou posse como membro efetivo do IHGSP.
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| Basílio de Magalhães (✰ Barroso, 07/06/1874 - ✰ Lambri, 14/12/1957) |
I. INTRODUÇÃO pelo Gerente do Blog de São João del-Rei
Nesta 1ª conferência, o orador relembra o presente que a Prncesa Isabel lhe fez de sua pequena biblioteca particular e a sua iniciação jornalística em São João del-Rei, sem descurar de enaltecer a pujança e o progresso do povo paulista na sua formação; em seguida, manifesta um preito de louvor e gratidão pelo convite de integrar o quadro social do IHGSP que muito admira; e, por fim, exalta a importância do Arquivo Nacional, graças ao qual realizou importante pesquisa de campo e fez novas descobertas sobre os ciclos do bandeirismo paulista na fase colonial, dando especial atenção aos seguintes ciclos: da caça ao índio, da esmeralda, da prata, do ferro e do ouro.
II. Texto do Correio Paulistano
Com a presença do sr. comendador Tiburtino Mondim Pestana, representando o sr. dr. Altino Arantes, secretário do Interior, realizou o sr. Basílio de Magalhães, distinto lente do Ginásio de Campinas, a primeira das três conferências que se propõe a efetuar no Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo. (...)
“Srs.: Desde anos muito em flor, quando, em geral, nos cérebros ainda em incipiente formação para a grande labuta da existência predomina apenas o vivaz e dispersivo pendor para as doidivanices, peculiares dos que nasceram e se criaram no conforto e na fortuna, — a necessidade, de quem muito bem disse eminente pensador que é "ama de seios magros, porém, que dá aos seus rebentos leite são e fortificante", arrojou-me ao trabalho, antes mesmo de haver eu atingido ao extremo da segunda idade.
Eu mal havia transposto os 13 anos, quando busquei conciliar os estudos de humanidades com o ganha-pão, e o conhecimento da arte tipográfica abriu-me emprego no primeiro órgão republicano que repontou no berço do meu conterrâneo Tiradentes, "A Pátria Mineira", onde um pugilo de crianças, das quais é já viageiro do Além o nobre espírito de Altivo Sette, e aqui estamos apenas dois, Sertório de Castro e eu, bebíamos sofregamente as lições de ciências e letras e os altos ensinamentos de civismo que nos ministrava Sebastião Sette, hoje septuagenário, sólida cultura e caráter sem jaça, e condenado pela politicagem nefasta e mesquinha e estrábica ao ostracismo injusto, que ele suaviza num lar feliz, no remanso bucólico do tradicional Capão da Traição, o Matosinhos de agora.
"A República Federal" de Assis Brasil, o primeiro livro político que me caiu em mãos para uma constante e proveitosa leitura e a propaganda dos novos ideais, indefessa e acentuadamente realizada por Sebastião Sette, fizeram-me preferir à prometida proteção da herdeira do trono de d. Pedro II, — da qual recebi, com gratidão, que sempre lhe guardo, uma biblioteca de estudos propedêuticos, — o mourejar de cada dia, a árdua conquista do pão material e do pão espiritual, e, simultaneamente, a audaciosa interpresa de combater o grande combate pela radical transformação política de nossa Pátria.
A crise auroral de 15 de novembro, — infelizmente não transmudada ainda na perene luz de paz, de serena e inamolgável justiça, e, enfim, de vera e civil democracia, que ajudei a pregar, — achou-me de atalaia, no baluarte da "Pátria Mineira", como a pequenina sentinela intimorata que servia de avisar, lá do alto do torreão onde cintilava a almenara, quer a aparição do inimigo, quer as alvíssaras de vitória.
Norteou-me a vida, de então para cá, um consciente, um esclarecido, um ardoroso amor pátrio, que não cede o passo a nenhum outro dos meus sentimentos. E, para maior felicidade minha, o restante da formação do meu espírito, — vim fazê-lo aqui, nesta gloriosa Atenas brasileira, onde vivem e rebrilham, na imprensa, nos institutos científicos e literários, nas cátedras das escolas, e até nas tão requestadas posições da política, os meus mestres, os meus camaradas e os meus discípulos.
Dizia sempre, e sempre escrevia de mim, quando gentilmente me ofertava as suas produções poéticas, o velho satírico e bondoso padre que foi Correia de Almeida, — que eu era um "mineiro apaulistado".
É verdadeiro o asserto, — ouso proclamá-lo alto e bom som.
Sem nunca olvidar o torrão natal, sem nunca perder as afeições que lá me redobraram a infância e me acompanham como um resplendor saudoso e sugestivo, — aqui foi que completei a minha educação social e aqui, força é que eu pronuncie o termo necessário, foi que yankeezei o meu espírito, plasmado pela febre de progresso, de praticidade de arrojo, de perseverança, que uns restos do sangue dos bandeirantes punha na enfibratura desta gente hospitaleira, fidalga e empreendedora, coadjuvada e cada vez mais impelida para diante pelo braço estrangeiro, que trouxe energias novas a se juntarem às energias deste admirável povo paulista.”
“Passado o prurido das pugnas jornalísticas e dos arroubos poéticos, — apanágio daquela "primavera della vita" de que fala Metastasio, — fui, pela porta larga de um concurso, assentar em Campinas a minha tenda de certâmen, no ensino público.
Surpreendeu-me lá, srs., a eleição com que me honrastes.
Nunca me fiz lembrado para os cenáculos quaisquer, nunca aspirei a frívolas galas inexpressivas e infecundas; mas também nunca recusei a minha parcela de atividade aos que trabalham seriamente, aos que se votam seriamente ao bem geral.
O Instituto Histórico de S. Paulo, fundado pelos homens que mais se dedicaram aqui ao culto das gloriosas e venerandas tradições da terra dos intrépidos pioneiros da nossa civilização, dos triplicados da área territorial do Brasil, e contendo no seu ilustre grêmio o escol da intelectualidade paulista, bem merece, pela soma opulenta dos serviços já prestados ao estudo da nossa evolução, que eu lhe ofereça, no estrito limite da minha capacidade, a exígua contribuição que ora lhe trago, e, mais do que ela, o preito da minha profunda admiração e do meu inequívoco reconhecimento.
O autor inglês de interessante obra, vinda a lume, em meados do século findo, com o título Costumes da Índia, conta que, no reino de Onde, impunha o soberano, a quem por ele quisesse ser recebido, lhe apresentasse 500 moedas de ouro a luzirem sobre rendilhado lenço de fina seda.
Maior, por sem dúvida, é o tributo que merece se lhe renda este sodalício por parte dos a quem foi galardoada a subida honra de ter o nome inscrito no seu quadro social e de ser aqui acolhido com tanta benevolência e com tanto carinho.
Não é o fulvo metal, srs., que ostento nas mãos, neste momento, para testemunho do meu apreço para convosco.
É, sim, a história documentada dos que o descobriram nos virgens recessos do sertão pátrio e o arrancaram das entranhas fecundas do Brasil que me vai sair dos lábios, como prova do desejo sincero que tenho de colaborar convosco neste augusto ministério de reevocar e engrandecer cada vez mais o culto do passado, para que melhor nos guiemos no presente e melhor preparemos o futuro.
Creio que só assim posso corresponder, embora muito aquém do vultuoso penhor a que me obrigastes, à distinção de que me fizestes alvo e à afetuosa acolhida que acabais de dar-me no Instituto Histórico de S. Paulo, — templo em hora boa erguido pelos descendentes dos bandeirantes àquela a que Cícero chamou "luz da verdade, testemunha do tempo e mestra da vida".
E, ao concluir este rápido agradecimento, devo também consignar que profundamente me sensibilizaram, tanto as palavras bondosas do sr. dr. Luiz Piza, como a presença do digno representante do dr. secretário do Interior, como ainda a presença de tão seleto auditório.”
O crime consistiu na seguinte trama: em vez de pagarem o tributo à Coroa, três moradores influentes de Taubaté montaram certa estrutura clandestina com a finalidade de:
O Desfecho
A fraude gerou um enorme rombo nos cofres públicos, sendo descoberta pelo governador Artur de Sá e Menezes por meio de uma rigorosa investigação judicial (a Devassa de 1698). O escândalo provocou a punição diferenciada dos membros e forçou a Coroa Portuguesa a proibir a circulação de ouro em pó, culminando no fechamento definitivo da Casa de Fundição de Taubaté em 1704 para transferir as operações diretamente para o solo mineiro.
Domingos Dias de Torres, diferentemente de seus comparsas (o beneditino Frei Roberto e o vigário José Rodrigues Preto), não pertencia ao clero nem tinha imunidade eclesiástica; era um cidadão civil, morador da Vila de Taubaté. Ele era o cérebro técnico da fraude, pois possuía o conhecimento metalúrgico necessário para gravar e fabricar o carimbo de ferro (o cunho de punção) que imitava perfeitamente a marca da Coroa Portuguesa. No contexto do grande escândalo do desvio do imposto do ouro (o "quinto") em Taubaté no final do século XVII, Domingos Dias de Torres foi o mestre artesão e principal executor material da falsificação dos cunhos reais.
O esquema funcionava assim: com o cunho falso esculpido por Domingos, o trio transformava ouro clandestino em ouro "legalizado" sem que um único grama fosse entregue às autoridades fiscais da metrópole. O ouro em pó trazido do sertão mineiro era fundido, marcado com o selo falso em Taubaté e devolvido aos contrabandistas, que pagavam uma comissão ao grupo pela fraude.
A Devassa de 1698 foi o inquérito judicial oficial aberto pelo governador da Capitania do Rio de Janeiro, Artur de Sá e Menezes, para investigar e desmantelar a rede de contrabando operada por meio de cunhos falsos em Taubaté.
O processo correu com extremo sigilo e rigor militar, sendo um dos primeiros e mais detalhados registros documentais sobre a corrupção fiscal no início do Ciclo do Ouro no Brasil.
As Descobertas do Inquérito
A investigação revelou uma sofisticada estrutura criminosa dividida em três frentes:
Frente Técnica: Comprovou-se que o artesão Domingos Dias de Torres havia esculpido um punção de ferro idêntico às ferramentas oficiais da Coroa para estampar o selo real nas barras de ouro.
Frente Logística: Os depoimentos colhidos apontaram que o grupo operava de dentro de estruturas religiosas locais. O ouro vindo do sertão era derretido clandestinamente e marcado, burlando o imposto do "quinto".
Frente de Proteção: A devassa expôs o envolvimento direto do clero na facilitação do crime, apontando nominalmente o monge beneditino Frei Roberto e o vigário de Taubaté, José Rodrigues Preto, como cabeças do esquema.
Em 4 de junho de 1698, o governador Artur de Sá e Menezes formalizou o encerramento da primeira fase da devassa e enviou um relatório detalhado ao Rei D. Pedro II de Portugal.
A papelada gerada por essa devassa serviu de base jurídica para as cartas régias de 1699 e determinou as diretrizes que culminaram na reforma total da fiscalização e no encerramento da própria Casa de Fundição de Taubaté em 1704.
Por não possuir imunidade religiosa, Domingos sofreu a punição física e civil mais severa do grupo. Ele foi condenado à prisão, teve todos os seus bens confiscados pela Coroa Portuguesa e foi sentenciado ao degredo (exílio forçado da colônia).
Frei Roberto conseguiu fugir para o Reino de Portugal logo no início das investigações do governador Artur de Sá e Menezes. Como era um religioso da Ordem de São Bento, ele não pôde ser julgado pela justiça civil comum. Sua punição ficou a cargo do Tribunal Eclesiástico e de seus superiores na Europa, resultando no seu recolhimento forçado a um convento em Portugal, onde foi vigiado e afastado definitivamente das atividades na colônia.
Valendo-se do chamado "foro eclesiástico" (o direito de clérigos serem julgados apenas por tribunais da Igreja), o vigário secular José Rodrigues Preto conseguiu evitar a execução de uma pena de morte ou prisão comum pelas mãos do governador. Ele foi afastado de suas funções paroquiais em Taubaté e respondeu a um longo processo canônico.
A fraude dos cunhos evidenciou que a Casa de Fundição de Taubaté ficava localizada em uma "zona de escoamento" vulnerável e muito distante das zonas de extração mineral (as Minas Gerais). Para mitigar os desvios, a Coroa concluiu que as fundições deveriam operar diretamente nos arraiais mineradores.
Em 1704, sob o argumento de que a estrutura de Taubaté havia cumprido seu papel provisório — mas fortemente motivada pela insegurança fiscal gerada pelos escândalos de falsificação —, a Coroa determinou o encerramento definitivo de suas atividades, transferindo o eixo oficial de arrecadação do "quinto" para o território mineiro.
A seguir, no programa de descentralização das Casas de Fundição, foram estas as principais diretamente em solo mineiro:
1) Casa de Fundição de Vila Rica (11/02/1719)
2) Casa de Fundição de Sabará (11/02/1719)
3) Casa de Fundição de São João del-Rei (1725)
4) Casa de Fundição de Ribeirão do Carmo (1734)




2 comentários:
Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Prezad@,
Tenho o prazer de transcrever a primeira de três conferências por BASÍLIO DE MAGALHÃES, proferida no dia 20 de março de 1914, no salão nobre do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, quando tomou posse como membro efetivo do sodalício.
É preciso fazer um reparo: no parte final do presente post, o jornal Correio Paulistano oferece a sua interpretação do que foi dito por Basílio, ou seja, não reproduz exatamente o que ele disse da tribuna.
No Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, pela Resolução 09/1974, de 02/06/74, na gestão do fundador e primeiro presidente Fábio Nelson Guimarães, Basílio foi instituído “Patrono do IHG-SJDR”, sendo desde então, hoje e doravante digno de toda a honra e de todo o louvor por parte de todos os seus membros e da comunidade são-joanense.
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/08/o-bandeirismo-paulista-conferencia-no.html
Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei
Pedro Rogério Moreira (jornalista e sócio da Gracián Telecom, cronista e memorialista brasileiro) disse...
Obrigado!
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