quarta-feira, 15 de julho de 2015

LEMBRANÇAS DE MEUS TEMPOS DE MENINA NOS CLUBINHOS DO PADRE PEDRO TEIXEIRA PEREIRA


Por Elizabeth dos Santos Braga *






Aproveito a festa de Nossa Senhora do Carmo, que lhe era tão cara, para escrever algumas linhas em memória do saudoso Padre Pedro. Elas não abarcam a beleza de sua pessoa, mas mostram uma experiência única que compartilhei com muitas outras crianças e seus pais.

Foi justamente voltando da novena do Carmo, em São João del-Rei, há mais ou menos trinta e seis anos atrás (eu devia ter doze anos), que, encantada com a sua pregação (que era uma verdadeira aula bíblica) e animada pela minha mãe, Celina dos Santos Braga, atravessamos a Rua Direita para cumprimentá-lo.

Ele foi tão gentil e me contou tantas coisas interessantes de um tal clubinho que ele organizava, com membros em várias cidades de Minas, que o acompanhamos até a Casa Paroquial da Matriz e combinamos de nos encontrarmos no outro dia. Para mim, ficou a tarefa de conseguir mais crianças dos arredores da Rua das Flores para fazermos o nosso primeiro encontro.

Na manhã seguinte, eu procurei crianças e adolescentes amigos meus e de meu irmão Rafael e animei-os a irem à minha casa à tarde para um encontro do “clubinho do Padre Pedro”. À hora combinada, fui com duas amiguinhas de brincadeiras, as irmãs Cida e Dorotéa, buscar o Padre Pedro. Ficamos imediatamente contagiadas pela sua simpatia e simplicidade. Ele nos chamava de florzinhas da Rua das Flores.

O encontro do clubinho foi um sucesso! Sua fala eloquente, seu jeito de contar histórias, seu conhecimento da Bíblia, o uso de desenhos na lousa que eram acompanhados por nós em cadernos que ele levava para cada pessoa, os bilhetes para ele ao final da aula (aos quais ele respondia um por um e levava no próximo encontro), tudo isso foi muito bom! Ao final do encontro, brincadeiras e um delicioso café preparado pela Mamãe, com seu delicioso pão de queijo, e pela Fota (Maria José, nossa querida cozinheira)!

Houve alguns encontros em nossa casa e, posteriormente, fomos convidados a participar de outros em casas de amigos dele em Matosinhos. Na época, ele era auxiliar do Padre Jacinto e havia outras crianças interessadas lá. Ficamos sabendo que uma delas era a Raquel, filha dos queridos Inácio e Celina Longatti. Foram muitas idas e vindas! Cida e Dorotéa foram muitas vezes comigo e com a Mamãe à casa da Raquel e de outras pessoas, como a Eunice, que abriam seus lares para os ensinamentos e a graça do Padre Pedro. Era uma alegria! Ao Padre Pedro aplica-se muito bem a citação: “Deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o reino dos céus”. (Mt 19, 14)

Ele corria conosco em piques após os encontros; duas vezes, em nossa casa, foi difícil encontrá-lo: numa, subiu na caramboleira; noutra, escondeu-se atrás de um colchão, no porão!

Uma ideia nos empolgou por completo: visitarmos as torres das igrejas! O pai de uma das crianças de Matosinhos tinha uma caminhonete e fomos, nem me lembro quantas crianças, a uma por uma: Matriz, Igreja do Carmo, do Rosário, São Francisco, Mercês, Bonfim. Subindo as escadas ou mesmo do alto da torre, ele nos dava verdadeiras aulas de cultura, história e lendas são-joanenses, arquitetura barroca, religião. Mostrou-nos o formato do telhado da Igreja de São Francisco (um peixe, símbolo de Cristo, palavras que começam pela mesma letra em grego, se a memória não me falha) e da praça em frente, das palmeiras imperiais, como uma lira, em homenagem à terra da música. Ensinou-nos que a Igreja do Rosário era a única em que os escravos podiam assistir à missa nos bancos (daí os santos negros nos seus altares) e onde eles ficavam em outras, beirando o teto, contando-nos que certa vez uma pessoa despencou lá do alto. Contou lendas envolvendo as igrejas e histórias de quando era um menino criado ao lado da Igreja do Carmo, que brincava de achar pequenas pepitas de ouro na rua, quando acabava de chover. Que no círculo em cima da torre do Carmo cabe um homem de pé, que essas igrejas formam uma cruz, com a Matriz ao centro...

Ainda me lembro da sua figura, vindo lá na esquina, com um terno preto, bem velhinho, mas um andar muito elegante. Ele era ainda jovem e alto, com uma voz possante. Num de seus diálogos com seu irmão, Padre José, um dos dois disse: “Quando eu nasci, minha mãe pôs um trombone na minha garganta!”

Padre Pedro era muito engraçado e quando alguém dizia algo provocativo, ele dizia: “Fulano é fogo!” Um dia, Mamãe reclamou para ele que eu estava muito difícil, ficando adolescente, muito chata, etc. O que ele fez? Ficou de mal dela. Doutra feita, ela pediu a ele para dar uns conselhos para o Rafael. Ele chegou lá em casa e disse: “Rafael, estou precisando de uns conselhos...”.

Dos encontros dos clubinhos (assim apelidados os encontros da organização que ele fundou – “Clubinho Vocacional Salesiano” – da época em que era padre salesiano), ficou gravada a imagem de um profundo respeito por quem estava na posição de aluno: ele incentivava a participação de todos e o diálogo. O clubinho tinha até carimbo e nós nos correspondíamos com crianças de várias cidades mineiras, por cartões postais.

Padre Pedro passou um tempo como missionário junto a aldeias Yanomami. Contava muitas histórias interessantes. Uma delas era mais ou menos assim: “Um padre mais velho com quem ele trabalhava batizou vários índios e depois de um tempo longo (um ano, talvez), deu-lhes confissão para a Páscoa. Um dos índios não se confessou e apresentou-se para a comunhão. O padre não deu comunhão para ele, mas este não saiu da fila e esperou até o fim e pediu para o padre que exclamou: ‘Mas você não se confessou!’ Ao que o índio respondeu: ‘Depois que índio batizar, índio não pecar mais!’ E o padre lhe deu a comunhão.” Ele se emocionava ao contar essa história.

Nos últimos tempos de sua vida, ele não se lembrava de muitas pessoas, mas ainda celebrava a missa, acompanhava as procissões com fervor e com alegria, cantando com sua linda voz, sempre homenageando sua querida Mãezinha (como ele tratava Nossa Senhora).

Quando ficou doente e morando em Resende Costa, Mamãe e eu fomos visitá-lo. Com muito esforço, ele se lembrou de nós e dos clubinhos. Saiu da pequena sala onde nos recebeu e voltou com um livrinho da vida de São João Bosco e escreveu a dedicatória: “Para a inesquecível Bethinha”. Padre Pedro, o senhor é que é inesquecível! Obrigada pela lição de amor e humildade!


* Nascida a 11 de junho de 1967, em São João del-Rei, Minas Gerais, Elizabeth dos Santos Braga é a oitava filha de Roque da Fonseca Braga e Celina dos Santos Braga. Em sua cidade natal, estudou no Grupo Escolar João dos Santos, Colégio Nossa Senhora das Dores, Escola Estadual Cônego Osvaldo Lustosa e Universidade Federal de São João del-Rei (na antiga Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras), onde se graduou em Pedagogia, em 1988. Possui mestrado e doutorado em Psicologia da Educação, cursados na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e realizou pós-doutorado no Departamento de Educação na Universidade de Oxford, Inglaterra. Mais...

14 comentários:

Ray Pinheiro disse...

Maravilhoso texto que deixou-me a viajar por São João Del Rei-MG , minha Cidade natal , parabéns , saudades do querido e abençoado Padre.
Atenciosamente,
Ray Pinheiro.

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (desembargador, palestrante, conferencista, escritor e membro da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

MUITO BEM!

Ana Paula Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Paula Ferreira disse...

Emocionantes as histórias que Elizabeth relatou aqui. Fiquei sensibilizada pela simplicidade, dedicação e o amor que Padre Pedro teve com os jovens. Um verdadeiro educador que soube sublimar os momentos simples e dar significados valiosos para toda a vida. Fantástico!

edu disse...

Que saudades do Pe. Pedro. Grande Amigo, extremamente sensível; as angústias eram logo dissipadas ao estar ao seu lado e ouvir os seus conselhos. Que saudades também de todos vocês, Bragas; você é a cara de sua mamãe e do Francisqº. Fico imaginando: como estarão cada um após a modelagem das fisionomias pelo tempo. Um fraterno e saudoso abraço a todos.

edu disse...

Que saudades do Pe. Pedro. Grande Amigo, extremamente sensível; as angústias eram logo dissipadas ao estar ao seu lado e ouvir os seus conselhos. Que saudades também de todos vocês, Bragas; você é a cara de sua mamãe e do Francisqº. Fico imaginando: como estarão cada um após a modelagem das fisionomias pelo tempo. Que Na. Sra. do Carmo, neste seu dia, abençoe cada um de vocês, São João e todos os Sanjoanenses. Um fraterno e saudoso abraço a todos.

Ana Paula Ferreira (contadora de histórias e funcionária da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida) disse...

Bom dia, Francisco!

Linda história do Padre Pedro. Fiquei emocionada. Deixei uma mensagem no Blog. A princípio eu não estava conseguindo deixar meu comentário, acabei excluindo sem querer, mas depois deu certo. Obrigada e parabéns pela postagem.

Ana Paula Ferreira

Pe. Vicente de Paula Rigolon (Diretor (de 1987 a 1992) do INSTITUTO SÃO JOSÈ -SALESIANO DE RESENDE, DA INSPETORIA SÃO JOÃO BOSCO) disse...

CARO AMIGO FRANCISCO BRAGA! BOA NOITE E PARABÉNS PELA BELA INICIATIVA EM HOMENAGEAR A MEMÓRIA DO GRANDE SACERDOTE DE ONTEM E DE HOJE, TAMBÉM PELA GRANDE DEDICAÇÂO EM SERVIR E SANTIFICAR O POVO DE DEUS E EM ESPECIAL SUA TERRA SÃO JOÃO DEL REY, QUE SEMPRE AMOU DE PAIXÃO! QUE DEUS DE BONDADE O ACOLHA EM SEU REINO E JÁ ESTÁ LA COMO NOSSO INTERCESSOR!!! CERTAMENTE AO LADO DE DOM BOSCO DE QUEM FOI SERVO FIEL!!!! JAMAIS O ESQUECEREMOS PELA SUA DEDICAÇÂO PELO TRABALHO VOCACIONAL E PELA JUVENTUDE!!!
AGRADECEMOS PELO SEU CARINHO, Pe. Vicente de Paula Rigolon 16/07/2015 em RESENDE-RJ

Rute Pardini (cunhada de Elizabeth dos Santos Braga, cantora lírica e bacharel em canto lírico pela UnB) disse...

Oi, Elizabeth,
que triste! agora que eu chorei mesmo. Acabei de fazer um comentário ao seu artigo lindo do padre Pedro, mas, ao tentar postar, apaguei tudo.
Chorei ao ler a maravilha de vida que foi a sua na sua adolescência e que eu perdi por não morar aqui e não poder ter conhecido o Padre Pedro.
Vou tentar escrever novamente.
Mais uma vez parabéns pela linda lembrança.
Lembra que a gente lhe ligou? Eu falei logo com o Francisco: "Só a Elizabeth tem o "cacife" para escrever algo. Ela conviveu juntamente com sua mamãe e padre Pedro."
E olhe: a data não poderia ser mais adequada.
É isso aí. Sei que você está maravilhada com essa data que nunca sairá do seu coração.
Hoje saudamos Nossa Senhora de Monte Carmelo e também seu filho dileto Santo Padre Pedro.
Se no céu também hoje há festa, pode ter a certeza de que Pe. Pedro estará lá "brincando" e cantando para ELA.
Bjs mil de sua cunhada que muito a admira,
Rute.

Dr. Lúcio Flávio Baioneta (conferencista, proprietário da Análise Comercial Ltda em Belo Horizonte e colaborador do Blog de São João del-Rei) disse...

Meu prezado amigo FJSBraga,
acordei na manhã desta quinta-feira, dia 16, com o foguetório aqui na Igreja do Carmo, em Belo Horizonte, muito perto de onde moro, não mais que 200 metros.
O badalar de seus sinos me avisavam que era um dia diferente. Os sinos, em sua linguagem única, diziam que estavam alegres, muito alegres e eu acho que por dois motivos, pelo menos.
1- Naquela manhã iniciavam se as comemorações do dia de N. S. do Carmo, 16 de julho.
2- A segunda razão de tanta alegria, eu só entendi depois que li o excelente artigo escrito pela Elizabeth dos Santos Braga, sobre um padre extraordinário, devoto fervoroso de N. S. do Carmo, o Pe. Pedro.
O espírito radiante de luz de Pe. Pedro esteve aqui também.
Beth, permita-me trata lá assim, você nos brindou com um texto lindo. Muito obrigado! Receba os meus parabéns.
Abraços do Lucio Flavio

Fábio da Silva disse...

Elizabeth,
Fiquei feliz em poder ler essa história do Pe Pedro Teixeira. Exemplo de sacerdote e ser humano. Que tenhamos a coragem de seguir o exemplo do Pe Pedro para que o mundo seja melhor.

Luzia Rachel S. Braga disse...

Boas lembranças deste tempo que também convivi um pouco, pois já morava fora de São João. Parabéns, querida irmã, por retratá-las com tanta fidelidade e carinho! Beijo, Luzia

Anônimo disse...

Meu Deus! Elizabeth, você fez uma síntese, que eu desejaria ter feito. Como se parece sua história com Revmo. com as nossas aqui de Dores de Campos. Eu também convivi com ele por 09 anos aqui. Tudo que você descreveu é exatamente igual ou seja o carisma e a disposição em levar Deus a todos principalmente aos "pequeninos" como ele dizia era a missão dele. Aqui era o CVS( Clubinho Vocacional Salesiano)éramos chamados de os meninos e meninas do Pe. Pedro. Foram anos de muita aprendizagem e bençãos. Ah! Eu teria mais um dia para lhe falar sobre ele, mas você resumiu tudo e descreveu nosso estimadíssimo Revmo. Sr. Pe. Pedro Teixeira Pereira de forma exata.
Com todo meu carinho e grata por tão bela leitura, me despeço.
Bençãos de Nossa Senhora Auxiliadora!
Eu sou Erotildes Maria Malta Gonçalves
Dores de Campos _ Mg

Anônimo disse...

Errei ao colocar anônimo.